Não gosto de sentir o coração bater. Não o meu, o dos outros.
Quando era pequena, tinha medo que as pilhas da minha boneca acabassem para sempre. Achava-a muito frágil para ser sujeita a uma grande cirurgia. Era terrível só de imaginar que algum dia tivesse de arrumar dentro dela um pacemaker, por minha causa.
Sentia-me culpada por obrigá-la a falar comigo e fazer bolhinhas, durante dias a fio desde o Natal. Dizerem que a boneca um dia ia “perder o pio”, era como um murro de mão fechada no meu estômago. Se ela perdesse “o pio” e deixasse de fazer bolhinhas, a culpa seria minha. Inevitavelmente minha. Nunca gostei de sentir o coração bater, o dos outros. Se algum dia a matei foi porque gostei muito dela. Extenuamos sempre os nossos bonecos até ao último sinal vital.
Nunca gostei de sentir bater o coração, o dos outros. Falta-me coragem estetoscópica, a coragem de engolir ouvido adentro o barulho sistemático e falível.