"Ela tinha sempre a janela aberta..."

Ela nunca pediu nada. Não era romântica o suficiente para querer. A mãe sempre lhe disse que o amor é que era. O pai confirmava-o com um beijo nos lábios da mãe assim que a fechadura dava de si. Todos os dias. Ela via e gostava, mas nunca pediu nada.

Ela, a rapariga semi-alta semi-morena semi-bonita semi-interessante, ouvia e calava. Comia e calava. Calava tudo o que, de dentro de si, pudesse soltar um grito. Volta e meia pegava em fita de cetim e enrolava-a de volta do coração, porque era preciso e para que ele não gritasse. Ela era quase sempre cerebral. Fria e carnal. Era osso duro de roer. Quando via uma flor unia as mãos e cerrava, imediatamente, os olhos para que eles não se apaixonassem.

A rapariga, ela, às vezes caía, sujava-se e arranhava os joelhos as mãos e tudo. Levava o dedo á boca para, com a saliva, limpar a ferida e esfregava com força a saia para tirar os vestígios do chão. Lamentável situação a de cair e toda a gente se rir! Não, isso não era para ela.

Ela não era só pedra. Gostava das histórias dos outros dos amores dos outros dos dias de sol dos outros dos casamentos dos outros. Ela vivia as paixões sozinha. Era só uma. Não era e jamais seria a metade de alguém, ou alguém a sua. Ela era uma. A vida dela tinha um código de acesso.

A vida dela tinha um código de acesso. Às vezes só uma impressão digital chegava. Às vezes ela apaixonava-se e dizia que não. Riam-se da veemência com que ela o negava. Ela não era só pedra. Às vezes apaixonava-se porque o perfume era bom e os caracóis bonitos. Então seguia-o. O som dos sapatos o toc-toc o batimento cardíaco o metálico dos carris o comboio a apitar as vozes, estavam longe. Ela às vezes, quando se apaixonava em segredo, vivia dentro de uma bolha cujas estradas eram sempre em linha recta. Cujas estradas não tinham mais destino nenhum, a não ser os caracóis.

Ela só tinha medo porque era semi-alta. Ela só tinha medo porque era um bocadinho baixa. Ela só tinha medo porque quase sempre esmurrava os joelhos e mesmo assim continuava a percorrer rectas, incessantemente. Ela tinha medo dela. Ela era tão romântica como a mãe. E queria um amor que lhe desse um beijo nos lábios até que a fechadura deixasse de dar de si.

Ela tinha sempre a janela aberta.