Não, obrigada.

Ser passivo é terrível. São posições, geralmente, levadas da cama para a vida. Está mal, não há que cruzar as opções horizontais com as verticais.

A fome não se mata com a vontade que temos de comer. Ela morre se comermos. Se, mecanizados, trôpegos, cansados, às vezes humilhados nos deslocarmos para afagar um pacote de açúcar ou uma passadeira de sushi.

Deixamos que estados de espírito menores nos dominem por trás. Ficamos sob coisas como o medo, o medo do passado, o medo antecipado, o medo do futuro, o medo dele, o medo dela, o medo dos fantasmas, o medo de cair, o medo de nos molharmos, o medo dos olhos, o medo da censura, o medo da prisão, o medo do espancamento em praça pública, o medo de termos sido adoptados sem saber. É parvo e, porque impulsiva, não sugiro que se pense em medos.

Condiciona-nos. Torna-nos passivos, submissos, á nossa eventual falta de motivação. É um erro. Isto não é um cliché merdoso e inexequível é, pelo contrário, possível de ser feito se estivermos para aí virados. Se resolvermos assimilar que a nossa vida é decadente quando a forma do nosso rabo se define no sofá onde nos sentamos.

Agora, uma coisa: não me incentivem a avançar para uma coisa que está acabada. Não insistam para que avance e desmaquilhe o que resta da minha figura, aparentemente, digna. Não se trata, isto, de um acto de submissão. Nem de passividade. Nem de medo, nenhum dos medos. É o respeito pela evidência. É não querer materializar uma desilusão que eu já arquitectei, a qual sei por que contornos se regerá. Não querer tornar real o corte que eu sei que vai arder.

É não arriscar e, portanto, não petiscar. Na verdade é ser inteligente e não ceder a romances que só são bem inventados. É qualquer coisa que se adequa, exclusivamente, a uma tela ou a uma folha. Porque é demais se for pensado como realidade provável. É um amor de sala almofadada, sem direito a janelinha na porta. É o tipo de coisa que não deve ser revelada. Porque se um dia, por azar, atropelar alguém ouvirei de longe uma frase deste género: “Ela já não está boa há muito tempo. Soubeste daquela paixão que teve? Que loucura! Ela não devia poder conduzir ”. Pois. Não quero.

No fundo isto não é nada demais, é só o melhor.