Verão. Ela acende o cigarro. Ele estica as pernas, cá fora ouvem-se os ossos. Quase se sentem. Ela…
- Dá-me o isqueiro outra vez. Continuando, não podes ver tudo dessa forma…
- Desculpa.
- Porquê?
- Nada tenho só de sair. Estou farto. Não consigo ouvir mais ninguém, percebes? Farto. Quem és tu, porra? Quem és tu, meio metro abaixo de mim, para me dizeres quem devo ser?
- Não grites comigo!
- …Que merda é esta? Agora achas que deves meter-te na minha vida? Abre a varanda e sai da minha frente.
Raiva. Ela ruge por dentro.
- Eu não sairei da tua frente se o argumento, até ao final da história, não for bonito.
- Cala-te!
- Se não te atirares da varanda.
- O quê?
- Rejeitas as vozes que te querem acalmar, rejeitas o Mundo. Não lhes sabes as cores e os sabores, porque não deixas que os teus olhos e a tua boca se abram. Queres, até ao fim, que a tua vida seja como um filme. Já estás por tudo, tenha ele final feliz ou infeliz para o protagonista.
- Cala-te! Só dizes porcaria. Cala essa boca. Só me apetece matar-te.
- …Imagina. “Ela desviou-se e o rapaz correu para as grades da varanda e sucumbiu ao desespero”. Anda porra! Corre para elas que eu deixo-te passar. Se queres apanhar ar, não quero que voltes.
- Bêbeda.
Ela desvia-se. Ele passa por ela, ultrapassa-lhe o semblante em passo acelerado. Ela…
- És egoísta, “ora és”? Nem sequer deixas que o vento te conheça. Atira-te, já pouco tens a fazer se não queres fazer nada. Vai lá, que assim a vida pode saber-te a qualquer coisa que não á saliva que já conheces.
Ele olha a lua e depois a lua branca no chão.
- Adoro-te.
Ainda Verão. Ela olha a lua e depois a lua vermelha no chão.