O carril do meu lado esquerdo


Ela pensou nele ao longo de cada passo. Cada pedra da calçada era responsável por um traço dele. A pedra seguinte era melhor de pisar do que a anterior. As pessoas da rua eram, para ela, os primeiros espectadores do filme que estava a ser inventado. Achava que lhe estavam a entrar na alma. Achava que elas conseguiam perceber, fruto dessa invasão á sua alma, que o sol daquele caminho estava a ser homenageado pelo acordeão das músicas do Tiersen. Não se importava. Não se importava nem da invasão á sua alma.
(Não me digam que o “acaso” tem somente as cores que lhe damos. É de menos. )
É anunciada a chegada do comboio. Ela, atrasada, obriga todo o seu corpo a galgar as escadas rolantes. Galgadas as escadas, já com o comboio á sua frente decide sem qualquer critério correr para a porta direita que lhe ficava dois passos mais longe do que a esquerda. Não por gostar mais do lado direito do que do esquerdo. A porta abre-se, escorrem-lhe gotas de suor testa abaixo, os cadernos estão perto do chão, o coração dela lateja. Entra. Pára e limpa a testa. Escolhe sem qualquer critério um banco para acalmar o corpo. Decide pelo do lado esquerdo que estava dois passos mais perto do que o do lado direito.
Lá estava ele, o do filme. Ela no banco do lado esquerdo e ele do lado direito do seu corpo.
Aprendeu que o lado esquerdo é o melhor de todos. Sempre o melhor de todos. Aprendeu que o “acaso” não existe por ser tão pouco.