Ela acha que a maior mancha esteve desde sempre impressa no pormenor, no pequeno pormenor. A mancha enorme, na sua vida, que era o amor deles bebeu desde sempre da subtileza.
Porque o amor não tinha, obrigatoriamente, de ser gritado. Podia ser dito, rezado como a mais secreta e silenciosa conversa. Era assim que ela via o amor deles, como uma instituição à qual se devia o mesmo respeito que se deve a uma Divindade – à mais bonita e mais pura, à mais bem concebida, à mais original, à mais leve.
Um amor quase imperceptível, um amor fidiano, um amor com personalidade, um amor que era mais fácil do que aprender a andar de bicicleta, um amor que se fosse preciso franzia a testa, um amor que olhava muito para o seu umbigo – para os dois que tinha. O amor deles era um amor celular.
O amor deles era um amor celular. O amor deles é um amor celular. O amor deles será um amor celular. Porque, no que toca ao amor, ela sabe que eles gostam pouco da mudança.
(este bilhete era dele. a letra era bonita e os dizeres também. mesmo "a encarnado".)