A Ana.


Há sempre quem interrompa a dormência permanente da qual somos alvo, todos os dias, sem que nos apercebamos. Como hoje. Quando dormia, como se tivesse morrido de olhos abertos; como se a sonhá-Lo assim, de olhos abertos, fosse colher o gozo da viagem da minha mão a cada ruga sua.

Como hoje. Quando dormia sonhava e morria mais, fui docemente acordada. O meu caderno estava, já, na mão dela. Era analisado saudosamente, como se já lhe tivesse pertencido. Era a memória a correr, a saltar-lhe para os braços.

- Quando era teenager também colava os meus artistas do coração, nos meus cadernos. Mandava vir as revistas alemãs, ia buscá-las à Rua do Carmo, chegava a casa e, depois de as ler, cortava-as e colava as fotografias. Como tu. Gostas do Morrissey?

A palavra teenager não soou mal, desta vez. Ela estava cheia de saudades, daquelas que matamos de ano a ano, como se o objecto estivesse emigrado, ou daquelas que matamos quando as pessoas se abrem para nós. E eu deixei-a palmilhar o meu caderno e falar muito.Falou-me da sua paixão pela Liz Fraser e da paixão por toda a sua obra (que guarda num baú com mil cadeados, imagino eu!).

- Um dia vi os Cocteau Twins. Guardo isso para sempre. Guardo a voz da Liz para o resto da minha vida.

Que inveja!

Fosse eu de pedra e nada me aceleraria o coração, nada me comoveria, mas hoje eu fui a Ana-pequena que comprava revistas alemãs. E foi bom.

Saibamos sugar as pessoas, as Anas, e os momentos de felicidade multiplicar-se-ão.