Como hoje. Quando dormia sonhava e morria mais, fui docemente acordada. O meu caderno estava, já, na mão dela. Era analisado saudosamente, como se já lhe tivesse pertencido. Era a memória a correr, a saltar-lhe para os braços.
- Quando era teenager também colava os meus artistas do coração, nos meus cadernos. Mandava vir as revistas alemãs, ia buscá-las à Rua do Carmo, chegava a casa e, depois de as ler, cortava-as e colava as fotografias. Como tu. Gostas do Morrissey?
A palavra teenager não soou mal, desta vez. Ela estava cheia de saudades, daquelas que matamos de ano a ano, como se o objecto estivesse emigrado, ou daquelas que matamos quando as pessoas se abrem para nós. E eu deixei-a palmilhar o meu caderno e falar muito.Falou-me da sua paixão pela Liz Fraser e da paixão por toda a sua obra (que guarda num baú com mil cadeados, imagino eu!).
- Um dia vi os Cocteau Twins. Guardo isso para sempre. Guardo a voz da Liz para o resto da minha vida.
Que inveja!
Fosse eu de pedra e nada me aceleraria o coração, nada me comoveria, mas hoje eu fui a Ana-pequena que comprava revistas alemãs. E foi bom.
Saibamos sugar as pessoas, as Anas, e os momentos de felicidade multiplicar-se-ão.