É com ele que ela sonha. A palavra sonho não está a ser utilizada de forma hiperbólica ou para mostrar o quão pesado se torna o lado esquerdo, dela, quando o vê, a ele. Não. O sonho acontece e é dentro dele que, a existir perfeição, ela se manifesta. Ela não garante que a perfeição seja assim. Acredita que a perfeição tem um cheiro e um sabor. Acredita ainda que ela é macia. De certeza, que não pica. A perfeição dentro do sonho, daqueles que lhe acontecem, não tem cheiro, nem sabor. Nada sabe a nada. E antes assim do que a morango ou limão. Não é rugosa, não é, mas também não é macia. Ela não o ouve, nunca! Nunca o consegue ouvir. E mal sabe ler os seus lábios. Mas, ainda assim, garante que é o lugar mais bonito.
Quando o sonho acaba, quando ele sai, quando vai para de onde nunca saiu, fica ela. Sozinha. Prostrada e com uma pedra duas pedras três pedras, do lado esquerdo. É tão pesado! Ela acha, disse-me, que os sonhos são todos, todos pintados pelas pedras. E é por isso que não têm cheiro. Nem sabem a nada, nem a morango ou limão. É por isso também que não têm textura. E é por isso é que doem. É também por isso, porque são pintados pelas pedras, é que são tão bons de manhã. Porque as pedras constroem os filmes mais intrincados, montam as vontades mais (in) conscientes.
E nos sonhos mora a perfeição – uma perfeição tosca e sem sentidos, mas ainda assim boa – porque lá não dói nada, lá é tudo leve, lá é tudo coração, lá a quantidade de abstracção é muito superior à de coisas concretas. Lá não há tempo porque, na verdade, um sonho dura trinta segundos e a vontade é, como a abstracção, muito maior do que a tentação de ela, a das três pedras, se ir embora.