Hoje, sorrateira, matei-te. Não soubeste que fui eu, porque quis que experimentasses a agonia de não saberes nada. Não soubeste se foi uma faca do talho, das que cortam que picam que brilham, ou se foi um canivete suíço igual ao meu canivete suíço. Foste ignorante, porque sê-lo arde. Arde, mil vezes mais do que as facas fazem arder. Foste tão ignorante! Ajoelhaste-te e lambeste a humilhação ácida. Esmurraste os joelhos e meia cara. Pediste vida. Padeceste branco-orante, em chão carmim. Choraste, enquanto imploravas o regresso ao segundo em que inspiraste para me dizer não, a querer muito sim. Foste engolido, foste consumido pela cólera.

(Jurei, por quanto te adorei, que não te daria a extrema-unção. Não merecias.)

Ferveste, ficaste morno como o que já não presta, depois frio e bonito. Até morto, és bonito! Nem morto deixas cair o ar cândido, o ar de quem não peca, o ar de quem tem dois ou três metros, o ar de cabrão que pode tudo. De cabrão que até morto, pode tudo.